Painel discute panorama geral do Switch-off analógico no Brasil

Em uma das sessões mais cheias do evento, a discussão girou em torno de todo o processo relacionado ao switch-off analógico do sinal de TV

Em uma das sessões mais cheias do evento, a discussão girou em torno de todo o processo relacionado ao switch-off analógico do sinal de TV

Com a presença de 9 palestrantes, painel levanta questões de ponta a ponta sobre o processo do desligamento analógico no Brasil que começa em abril de 2016.

A palestra “Switch-off: a realidade do desligamento analógico – do planejamento e perspectiva até a recepção”, moderada por Valderez Donzelli (SET/ADTHEC) aconteceu no terceiro dia da 26ª edição do Congresso SET, realizado pela Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET).

Em uma das sessões mais cheias do evento, a discussão girou em torno de todo o processo relacionado ao Switch-Off analógico do sinal de TV. Separada em tópicos principais, a palestra teve um caráter de painel, com perguntas e respostas dos participantes.

O cenário internacional

Para começar e contextualizar a discussão, instigados por Valderez, os participantes discutiram a experiência de migração para a televisão digital no cenário internacional.

Marconi Thomaz de Souza Maya, representante da ANATEL, e Andre Felipe Seixas Trindade, representante da ABRATEL, apresentaram experiências no exterior que não foram bem-sucedidas e que foram consideradas para o switch-off brasileiro. “Em Portugal o desligamento total foi em 2012 e o que aconteceu foi que a população não conhecia a data do apagão por falta de divulgação e de uma comunicação eficaz. O que acabou acontecendo foi que 30% da população não estava preparada para receber sinal de televisão digital”, explica Trindade.

Levando em conta tal preocupação, a discussão se encaminhou para como fazer a divulgação, visando evitar tais problemas. Geraldo Cardoso de Mello, da TV Alterosa, sintetizou o que foi discutido: “Acredito que essa comunicação deve ser feita de forma diferente para públicos diferentes. Nós temos que ter informações para o público usuário, para os técnicos e uma informação direcionada também às prefeituras para que elas saibam como agir diante desse cenário. Acho que essa é uma forma de viabilizar a comunicação e de que forma isso chegará a população.”

Tramitação dos processos de legalização

O debate seguiu para a tramitação dos processos de legalização do sinal de TV digital para as emissoras. Maya lembrou da palestra do dia anterior (https://revistadaset.com/2014/08/26/prazos-para-o-switch-off-analogico-no-pais-preocupam-radiodifusores/ ), onde havia apresentado os dados sobre emissoras regularizadas e lembrou: “Sobre as operadoras que não estão aptas para operar em sinal digital ainda, as operadoras devem entrar em contato com a ANATEL para que cada uma, individualmente, em conjunto, vejamos o que deve ser feito”.

Com a possibilidade de participação da plateia, foi levantado o questionamento sobre o processo de fiscalização realizado pela ANATEL que interditou diversas emissoras, principalmente em Minas Gerais, por conta de aspectos irregulares na utilização da radiofrequência e sobre o prazo de 9 meses para se regularizarem, considerado um prazo curto pelos presentes. “A partir do momento que a lei tipifica como crime a utilização de frequência para telecomunicações, o agente administrativo regulador tem obrigação de agir quando há uma denúncia desse tipo”, lembra Maya que também se manteve aberto para discussão posterior sobre esses prazos e os processos.

O planejamento

Do ponto de vista do planejamento, Valderez lembra que “para acontecer o desligamento analógico, é necessário que o digital esteja consolidado” e abriu a discussão para como todo o processo de transição para a TV Digital foi planejado e replanejado.

João Monteiro de Barros Neto, da Rede Vida, conta que “foi um processo muito rico o de replanejamento porque nós, engenheiros, broadcasters, sentamos em uma mesa e discutimos em conjunto a cadeia de liberação das faixas de radiofrequência para liberação do sistema digital”. Diante da fala de Barros Neto, Valderez lembra que “é necessário ter uma cadeia, mas que nem sempre há todo o comprometimento necessário”. Se alguém no meio da cadeia falha, “acontece um vácuo onde não há um plano B, ou seja, se não acontecer o planejado, não há como o projeto ter sucesso. Temos que trabalhar todos de mãos dadas para alcançar o objetivo em comum”, explica Barros Neto.

A Indústria
Do ponto de vista da indústria. Vanessa Lima e Oliveira, da Pro Television, levantou alguns pontos de desafios que a indústria pode enfrentar diante do cenários do switch off analógico e se focou, em especial, em dois pontos principais que “podem ter complicações a longo prazo que podem ser impossível regularizar após o switch off”. A eficiência elétrica e a possível reutilização do parque analógico já instalado.

Quanto a eficiência elétrica, é importante entender que os equipamentos digitais consomem muita mais energia que o sistema analógico e que isso, a longo prazo, pode comprometer o modelo de negócio das empresas. Neste ponto, Barros Neto lembra que o sistema de refrigeração de um sistema digital também requer muita energia, já que precisa de funcionamento 24 horas por dia. “Hoje a nossa legislação foca muito em aspectos técnicos, como a frequência de banda, mas há uma lacuna aí que é a da eficiência elétrica, que pode impactar na lucratividade das empresas”, afirma Vanessa.

Quanto a reutilização do parque analógico, Vanessa lembra que não há flexibilidade na legislação que permita a reutilização dos transmissores analógicos, com devidas alterações, como um equipamento reserva ao digital, caso aconteça algum problema na transmissão principal.

E se todo o parque analógico precisar ser inutilizado e todos os televisores e equipamentos analógicos pararem de funcionar o que fazer com todo o lixo eletrônico que será produzido nesse tempo. Essa foi a linha de pensamento trazido para a discussão por Henrique Mende, da ABINEE (Associação Brasileira de Indústria Elétrica e Eletrônica), que também sobre a logística reversa no processo de Switch-Off baseado na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

“O que eu percebi diante de tudo o que falaram aqui é que o Switch-Off criará uma onda de lixo eletrônico que precisa ser algo discutido. Estamos debatendo muitos pontos interligados que podem afetar o setor de broadcaster. A PNRS prevê que o responsável pela reciclagem desse material são os fabricantes, mas que a entrega para os fabricantes deve ser feita por comerciantes e distribuidores. Como muitos desses produtos eletrônicos podem ser considerados de uso perigoso, isso encarece muito a conta, pode impactar diretamente no faturamento das empresas”, explica Mende.

O Conteúdo

O debate seguiu então para um patamar mais voltado a produção do conteúdo. GIlvanni Moleta, da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura, acredita que as emissoras não tem mais dificuldade em produzir conteúdo para TV digital, o grande problema que as emissoras tem hoje é a convivência entre os dois sistemas e que o Switch Off vem de uma forma impositiva.

Valter Bonasio, da Escola de Televisão, complementou a discussão lembrando que, na formação acadêmica, a área técnica está muito mais desenvolvida do que na área operacional. E isso causa um distanciamento entre quem produz o conteúdo e quem faz com que este conteúdo chegue até as pessoas. “Nunca antes houve tanto a necessidade de aproximação entre a engenharia da televisão com a sua área criativa, de produção de conteúdo. A área de criação está sempre limitado ao que sabe que pode fazer, se ela não sabe o que é possível fazer, ela não fará”, explica.

Capacitação e divulgação

Como já levantado em outras palestras (https://revistadaset.com/2014/08/26/prazos-para-o-switch-off-analogico-no-pais-preocupam-radiodifusores/ ) do Congresso SET, a questão da divulgação de todo esse processo de desligamento do sinal analógico e de conscientização da população sobre o que fazer é muito complicada. Moleta acredita que “a TV Digital, hoje, para as pessoas, está muito relacionada a TV Paga, a cabo ou por satélite” e que faz com que as pessoas não tenham consciência das possibilidades que a TV Digital pode oferecer, como a interatividade.

José Carlos Aronchi, da SEBRAE, fechou a discussão do painel falando sobre os novos modelos de negócio que a TV digital oferece e como há uma falta de capacitação para lidar com esses novos modelos. “O problema das emissoras é que elas tem que investir primeiro para depois pensar nos modelos de negócio que irá aplicar. Acredito que a primeira capacitação que deve ser nesse sentido, sobre as possibilidades de modelo de negócio que a TV Digital pode criar”, completa.

O Congresso conta com 44 sessões e 220 palestrantes distribuídos em 4 auditórios simultâneos, em um fórum que congrega um grupo seleto de mais de 1.600 profissionais que discutem as questões mais relevantes do setor intensamente durante um período de 4 dias.

O evento reúne de 24 a 27 de agosto de 2014 no Pavilhão Azul do Centro de Convenções e Exposições Expo Center Norte em São Paulo, especialistas do Brasil, Estados Unidos, Japão, Europa e América Latina, que discutem os principais aspectos da produção, transmissão e distribuição em TV, além de temas relacionados a vídeo, cinema, rádio e internet. Entre os temas destacados está o switch-off da TV, as interações entre TV e Internet, os desenvolvimentos tecnológicos da Copa do Mundo e muitíssimos outros temas de atualidade da indústria.

* Por Gustavo Zuccherato, aluno da UNESP

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